UM NOVO OLHAR PARA A PRODUÇÃO AGRÍCOLA

Valéria Sandra de Oliveira Costa[1]

Alineaurea Florentino Silva[2]

A agricultura moderna enfrenta desafios como a produção de bens com qualidade; redução do uso de produtos fitossanitários; menor agressão ao meio ambiente sob os moldes de uma sustentabilidade econômica, social e ambiental, que tem como estratégia a agricultura sustentável, segurança alimentar e biodiversidade. Nesse sentido, a chave para o equilíbrio entre pragas, doenças e seu controle é a biodiversidade, responsável pelo equilíbrio e estabilidade dos ecossistemas. Com o intuito de combater a Revolução Verde, modelo de produção sustentada pelo Pacote Tecnológico, objetivando maior produtividade com menor impacto negativo ao ambiente, surgiramnovos sistemas de produção agrícolas que buscam uma agricultura sustentável. A Produção Integrada, tem como base as boas práticas agrícolas, gestão racional dos recursos naturais e utilização dos mecanismos de regulação natural em substituição a fatores de produção para obtenção de produtos vegetais e de origem vegetal de qualidade, contribuindo, deste modo, para a agricultura sustentável. Este sistema tem no manejo integrado de pragas e doenças uma peça chave, onde a incidência de pragas e doenças deve ser regularmente avaliada e registrada por meio do monitoramento e desta forma detectar a praga e doença em seu estágio inicial e assim prevenir sua dispersão e/ou disseminação por meio da adoção de medidas de manejo, aumentando as chances no controle. Já a Agroecologia, ciência que estuda formas mais sustentáveis de produção, envolvendo práticas, ferramentas e métodos, com respeito às diferenças em cada sistema de produção, tem sido estudada em diversos países e muitas práticas e técnicas por ela preconizada tem sido adotadas com sucesso em espaços geográficos os mais diversos. A base do pensamento agroecológico constitui no respeito a cada ambiente onde é desenvolvida a atividade produtiva, seja ela agrícola, pecuária ou de transformação. Essa postura vivida dentro da Agroecologia leva em consideração os recursos naturais e humanos pré-existentes nesses locais, sua preservação e o mínimo de uso de insumos externos. Com isso, grande parte do que se utiliza num sistema de produção agroecológico é sugerido especialmente por quem está morando ou trabalhando no ambiente em questão. O reconhecimento da vocação local também é uma das bases da produção de base ecológica, onde a lei do mercado (oferta e demanda) opera apenas indiretamente, fortalecendo um dos pilares da sustentabilidade, a equidade social, não necessariamente ditando as regras tampouco apontando o caminho a seguir ou o que produzir. Dentro desse contexto, levando em consideração a vocação ambiental e social, muitas experiências de base agroecológica têm sido exitosas na zona rural e em áreas urbanas e peri-urbanas. Alguns dos exemplos que podem ser citados são inclusive voltados para espaços de clima semiárido, acompanhados por instituições governamentais ou não governamentais, onde os desafios na escassa geração de biomassa presentes na maior parte do ano, são minimizados pelo manejo adequado da vegetação (plantada ou nativa), escolha de espécies enriquecedoras adequadas para as áreas de produção, reuso de resíduos orgânicos gerados, que seriam destinados ao descarte ou venda, sem retorno positivo em médio e longo prazos. Além desses aspectos práticos presentes na áreas de produção agroecológica, pode-se afirmar que parte do sucesso dessas iniciativas nessas regiões deve-se a dois aspectos voltados para a questão social que é o acompanhamento direto das instituições próximas, principalmente na fase de conversão do sistema convencional e a inserção de mulheres, jovens e idosos nas tomadas de decisão, valorizando a família como centro da atividade e reconhecendo a necessidade de redução dos impactos negativos ao ambiente em qualquer atividade por eles desenvolvida. A aceitação da população por produtos originados em sistemas de produção agroecológicos tem sido expressiva nas diversas formas alternativas de comercialização, em feiras agroecológicas, pequenos mercados ou mesmo em sistemas de entrega. Esse aspecto colabora com um outro pilar da sustentabilidade que traduz-se na viabilidade econômica. Por fim quando entende-se que a produção agroecológica precisa prioritariamente atender a esses três pilares (econômico, social e ambiental) percebe-se claramente que outras formas de produção menos impactantes ao solo e aos recursos hídricos são parte integrante dessa forma de produzir, sendo, por exemplo, a agricultura orgânica, agricultura biodinâmica ou permacultura fornecedoras de práticas e ferramentas adotadas na agricultura de base ecológica que tem na Agroecologia todo o alicerce epistemológico de sua forma de pensar.


[1]Professora do PRODEMA e do PROFCIAMB-UFPE, CAPES/PNPD-PRODEMA, Universidade Federal de Pernambuco, Av. Prof. Moraes Rego, 1235, Cidade Universitária, Recife-PE. E-mail: costavso@yahoo.com.br

[2]Pesquisadora da Embrapa Semiárido, BR 428, km 152, Zona Rural, Petrolina-PE. E-mail: alineaurea.silva@embrapa.br